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Quem fundou o primeiro banco privado de Angola? Os nomes, a influência da Sonangol e os milhões que levantaram suspeitas

Criado em 1996, o Banco Angolano de Investimentos (BAI) nasceu de uma iniciativa que reuniu gestores, empresários, investidores estrangeiros e figuras ligadas ao aparelho de Estado. Três décadas depois, a história da instituição continua a levantar questões sobre a origem do capital, a transferência de participações da Sonangol e a identidade dos beneficiários de algumas operações accionistas.

A história do Banco Angolano de Investimentos (BAI), considerado uma das instituições financeiras mais influentes do país, está profundamente ligada à evolução da economia angolana e à participação de figuras que, durante décadas, ocuparam posições relevantes nos sectores petrolífero, financeiro e político.

Fundado a 14 de Novembro de 1996, inicialmente sob a denominação de Banco Africano de Investimentos, o BAI surgiu num período em que Angola procurava abrir o seu sistema financeiro à iniciativa privada, depois de anos de forte intervenção estatal na economia.

Entre os nomes associados à criação e ao desenvolvimento da instituição destacam-se Mário Abílio Palhares, José Carlos de Castro Paiva, Theodore Jameson Giletti, Mário Alberto dos Santos Bárber e Manuel Vicente, antigo presidente da Sonangol e ex-vice-presidente da República.

Entretanto, a participação de cada uma destas figuras não foi idêntica. Enquanto alguns estiveram directamente envolvidos na concepção e implementação do projecto, outros desempenharam funções de administração ou surgiram ligados à estrutura accionista em diferentes momentos da história do banco. 

Os homens que estiveram na origem do BAI

O nome de Mário Abílio Palhares ocupa um lugar central na construção do BAI. Com uma longa carreira no sector financeiro, Palhares participou na implementação do projecto bancário e tornou-se uma das figuras mais reconhecidas da instituição.

Segundo um relato histórico publicado pelo jornal O Telegrama, a iniciativa contou com o impulso de Desidério Costa, então ministro dos Petróleos, e Joaquim David, que presidia à Sonangol. José Carlos de Castro Paiva, Mário Abílio Palhares e José Garcia Boyol tiveram igualmente participação importante na concretização do banco.

José Carlos Paiva, que desempenhou funções de direcção na estrutura da Sonangol em Londres, participou nos contactos destinados a atrair investidores nacionais e estrangeiros para o projecto.

Theodore Jameson Giletti também aparece identificado nas investigações históricas sobre a fundação da instituição e, posteriormente, na sua administração e estrutura accionista.

A presença destes nomes demonstra como o nascimento do BAI resultou da articulação entre experiência bancária, capital empresarial e relações com o sector petrolífero, numa altura em que a Sonangol desempenhava um papel determinante na economia nacional. 

Sonangol: a petrolífera que ajudou a financiar o banco

Um dos elementos mais relevantes da história do BAI foi a participação da Sonangol no seu capital inicial.

De acordo com investigações publicadas pelo portal Maka Angola e informações posteriormente divulgadas pela agência Lusa, a petrolífera estatal chegou a deter aproximadamente 18,5% das acções da instituição, figurando entre os seus principais investidores.

A participação da Sonangol tornou-se particularmente controversa quando surgiram denúncias relacionadas com a transferência de parte dessas acções para entidades privadas.

As investigações apontaram para uma redução de cerca de dez pontos percentuais da participação inicial da petrolífera, levantando questões sobre os beneficiários das transferências, os valores pagos e os mecanismos utilizados para concretizar as operações.

Em 2022, o jornalista Rafael Marques de Morais e a socióloga Tânia de Carvalho apresentaram uma queixa-crime à Procuradoria-Geral da República contra José Carlos de Castro Paiva, solicitando esclarecimentos sobre alegadas irregularidades na gestão e transferência de participações relacionadas com o investimento da Sonangol no banco.

As acusações constituem alegações submetidas às autoridades e não devem ser confundidas com uma condenação judicial. 

Manuel Vicente e José Carlos Paiva: quanto receberam pelas acções?

A ligação de Manuel Vicente e José Carlos Paiva à história do BAI também despertou o interesse de investigadores e organizações dedicadas ao combate à corrupção.

Manuel Vicente, que presidiu à Sonangol e mais tarde ocupou a vice-presidência de Angola, integrou os órgãos de administração do banco, enquanto José Carlos Paiva esteve associado a operações de participação accionista através de diferentes sociedades.

Uma investigação publicada pelo Maka Angola em Maio de 2022 mencionou três sociedades relacionadas com a titularidade de participações no BAI: Arcinella Assets, Sforza Properties e Dabas Management.

Segundo essa investigação, documentos analisados no âmbito de averiguações internacionais levantaram dúvidas sobre a identificação dos beneficiários efectivos de algumas participações. O nome de José Carlos Paiva apareceu associado à representação de sociedades que, em conjunto, chegaram a controlar uma parcela significativa do capital.

Contudo, não foi possível confirmar, com base nos documentos públicos consultados, o montante exacto que Manuel Vicente ou José Carlos Paiva terão pessoalmente recebido pelas operações relacionadas com acções da Sonangol.

Essa distinção é essencial: o valor das participações, o eventual preço de transferência e o dinheiro efectivamente recebido por uma pessoa são informações diferentes, que exigem documentação própria. 

Quem são os principais accionistas do BAI?

Quase trinta anos depois da sua criação, o BAI apresenta uma estrutura accionista diferente daquela que marcou o seu nascimento.

O Relatório e Contas de 2025 identifica, entre os accionistas destacados, Luís Filipe Rodrigues Lélis, com 6,33%; Mário Abílio Palhares, Theodore Jameson Giletti, Oberman Finance Corp, Dabas Management Limited e Lobina Anstalt, cada um com 5,23%.

O documento identifica ainda José Antunes Neto, com 3,53%; Mário Alberto dos Santos Bárber, com 3,41%; e Mota-Engil SGPS, com 3,14%.

Os restantes 57,45% aparecem agregados na categoria de outros accionistas. Esta categoria representa uma participação conjunta e não um único accionista maioritário. 

PARTICIPAÇÕES DESTACADAS NO RELATÓRIO DE 2025

 

 

 

 

 

Estes dados demonstram a permanência de figuras históricas na estrutura do banco, ao mesmo tempo que evidenciam a presença de empresas e investidores institucionais.

De banco pioneiro a potência financeira

Apesar das controvérsias relacionadas com determinados episódios da sua história accionista, o BAI consolidou-se como uma das principais instituições financeiras angolanas.

Em 2022, tornou-se a primeira empresa angolana a realizar uma oferta pública de venda de acções e a admitir os seus títulos à negociação na BODIVA, num marco importante para o mercado de capitais nacional.

Os resultados de 2025 confirmam a dimensão que a instituição alcançou. Segundo o relatório anual, o banco registou um resultado líquido individual de aproximadamente 296 mil milhões de kwanzas, enquanto o Grupo BAI apresentou um resultado consolidado de cerca de 317 mil milhões de kwanzas.

A instituição encerrou o ano com aproximadamente 2,85 milhões de clientes activos e activos líquidos individuais superiores a cinco biliões de kwanzas. 

Uma história que continua a levantar perguntas

A trajectória do BAI representa um capítulo importante da evolução do sector bancário angolano. É também um exemplo de como os investimentos públicos, as participações privadas e as decisões empresariais se cruzaram durante o processo de transformação da economia nacional.

As informações disponíveis permitem identificar vários protagonistas da fundação, conhecer parte da estrutura accionista e compreender a evolução do banco. Contudo, continuam a merecer esclarecimento público algumas operações históricas relacionadas com as participações da Sonangol.

Quem autorizou determinadas transferências? Que avaliações sustentaram os preços praticados? Quem foram os beneficiários económicos finais? E que mecanismos de fiscalização acompanharam as operações?

Responder a estas perguntas exige examinar contratos, registos de titularidade, comprovativos de pagamento e conclusões das autoridades competentes.

A história do BAI não se resume às suspeitas que envolveram antigos administradores ou accionistas. É igualmente a história de uma instituição que cresceu, atraiu investidores e conquistou uma posição relevante na economia angolana.

Mas compreender integralmente o seu percurso implica conhecer não apenas quem participou na sua fundação, como também de onde veio o dinheiro, como foram distribuídas as acções e quem efectivamente beneficiou das mudanças de propriedade ao longo das últimas três décadas.

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