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Presente envenenado para António Mosquito

Lisboa – Nos últimos dias, o nome de António Mosquito e do grupo empresarial a si ligado emergiram da tranquilidade e da discrição em que normalmente repousam para ocupar um espaço pouco habitual na agenda mediática, com parangonas em jornais, sítios de internet e até em contas institucionais de redes sociais. Meios nacionais e estrangeiros deram à estampa várias matérias sobre o empresário angolano e o Grupo António Mosquito (GAM), um conglomerado de cerca de duas dezenas de empresas em vários ramos de negócio, da banca ao comércio de automóveis, passando pela construção civil e pelo sector da energia, entre outros.

Aparentemente, a onda de louvaminhas que resultou na repentina exposição mediática de António Mosquito decorre da autorização dada pelo Presidente da República para a aquisição de 5% das acções da petrolífera estatal, SONANGOL, no Bloco 17/06, por parte da Falcon Oil, uma empresa do GAM. Ou seja, terá sido a decisão tomada a 7 do corrente mês por João Lourenço que levou o nome do empresário a ocupar as primeiras páginas de diferentes meios de comunicação social nacionais e estrangeiros, coberto de rasgados elogios, sendo que em alguns casos o foco foi deslocado da decisão presidencial para a figura do empresário. 

Algumas publireportagens maquilhadas de reportagens, inclusive publicadas em meios estrangeiros de acesso restrito, traçam o perfil de António Mosquito, usando o decreto presidencial como pretexto. A sua trajectória no mundo dos negócios é exaltada até à exaustão em alguns meios e acompanhada de um asterisco relevante: a classificação como um dos raríssimos, se não o único, bilionário angolano. Nunca o empresário que começou com a firma Mbakassy & Filhos no seu Huambo natal se viu sob tantas luzes da ribalta.

O espaço mediático dado ao GAM e ao seu patrão nos últimos dias faz passar a falsa ideia de que tanta “informação” pode ter resultado de uma “investida” dos serviços de Comunicação da empresa, a fim de lhe conferir maior visibilidade e dexandode lado o tradicional registo de discrição. Na verdade, aliás, essas “publicações favoráveis” iniciaram quase despropositadamente, alguns meses antes da tomada de decisão do presidente João Lourenço, numa altura em que o empresário nada fizera de novo para merecer tantos encómios, a não ser a gestão corrente dos seus empreendimentos. 

Não tendo também António Mosquito feito qualquer declaração pública bombástica sobre a economia nacional, nem emitido qualquer opinião sobre o momento político do país, essa exposição é manifestamente desproporcional. Na verdade, tem todas as características de um “presente envenenado”, o que não é de duvidar no opaco submundo da política angolana – não é novidade para ninguém que o peso da política na economia é sufocante. 

A poucos meses de mais um congresso decisivo do MPLA, as “declarações de amor” de jornais e sítios de internet em relação a António Mosquito e ao Grupo empresarial que lidera são, no mínimo, motivo de desconfiança. Podem ser verdadeiras armadilhas ou cascas de banana atiradas no seu caminho. Afinal, a luta pelo poder dentro do partido que governa Angola há mais de meio século costuma ocorrer em diferentes arenas, principalmente na económica e na financeira, além, naturalmente, das arenas política e social. E não foram poucas as vezes em que grandes decisões empresariais adquiriram enorme dimensão política.

O caso ganha contornos preocupantes, talvez até macabros, quando se sabe que, há já algum tempo, o nome do empresário vem sendo ventilado em altas esferas da liderança do país para assumir participações societárias de maior relevo, incluindo posições de liderança em negócios estratégicos da economia do país, em sectores-chave como a banca e as telecomunicações. Isto está a mexer com importantes grupos de interesse, que gostariam de abocanhar alguns dos tais negócios, que julgam poder cair nas mãos do GAM.

É, muito provavelmente, por esta razão que a autorização do PR para que o GAM adquira 5% da SONANGOL no Bloco petrolífero 17/06 ganhou uma amplificação desmesurada, inclusive em meios estrangeiros, nos quais a publicação de matérias é geralmente feita mediante o pagamento de avultadas quantias. O objectivo dessa “jogada”, associada à enumeração dos negócios do GAM, é o de passar a mensagemà Sociedade de que António Mosquito já tem o “suficiente” e não precisa mais de novos negócios. Aqui estão presentesfortes elementos de uma estratégia coordenada, a fim de criar estado de opinião junto do grande público de que o empresário pretende monopolizar tudo o que é negócio.

Há, contudo, outra razão relevante para a amplificação exorbitada da cedência desse percentual por parte da SONANGOL ao GAM. É que em 2014 a Falcon Oil foi afastada do Bloco 15/06, operado pela AZULE, joint-venture resultante da fusão da italiana ENI e da britânica BP. Ali, afirma angolana detinha 5% e sem que nada fizesse prever foi defenestrada ao arrepio da lei por um despacho do ministro José Maria Botelho de Vasconcelos, que não tinha competência legal para o fazer.

Roberto Almada, um especialista português em petróleo e gás,disse ao nosso site que não há comparação possível entre os dois Blocos e é injusta qualquer tentativa de paralelismo. De acordo com o nosso interlocutor, passar a mensagem que, ao adquirir mais 5% do Bloco 17/06, subindo assim para 10%, a Falcon Oil estaria a ser ressarcida na justa medida do prejuízo provocado pela saída do Bloco 15/06 é de todo desonesto. 

“Para que até os menos entendidos nessa matéria possam compreender, sirvo-me de uma comparação simples. O Bloco 17/06 é como se fosse um chouriço e o Bloco 15/06 é o porcointeiro. Quer dizer, de um porco pode-se produzir uma enorme quantidade de chouriço, enquanto um chouriço não passa disso mesmo: um chouriço”, exemplificou o expert. 

Fazendo fé no especialista que citamos, há uma “guerra surda” de interesses de empresas e cidadãos nacionais, que levou ao afastamento da Falcon Oil de um dos mais rentáveis Blocos do off-shore angolano.  E quer impedir que o GAM amplie o seu leque de negócios. “A exclusão da Falcon Oilnão teve nada a ver com empresas estrangeiras envolvidas no Bloco. Foram angolanos que mexeram os cordelinhos para apartar um compatriota, uma companhia nacional!”, sentenciou.

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