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O Protocolo, a Dor e o Peso das Imagens- Rui Kandove

Há momentos em que as imagens substituem os discursos. Não porque as palavras falhem, mas porque a realidade impõe uma linguagem mais direta, mais crua, mais incontornável. Em Benguela, onde as chuvas deixaram mortos, destruição e milhares de desalojados, o país não esperava explicações técnicas nem justificações burocráticas — esperava empatia.

 

O Presidente da República desloca-se às áreas sinistradas. Antes dele, chegam ministros. E é aí que a narrativa se quebra: descem do avião com semblantes leves, quase festivos, como se o contexto fosse outro. Não é um detalhe irrelevante. Em política, raramente há detalhes inocentes.

 

Quando o protocolo falha na empatia

 

O contraste entre a dor coletiva e a leveza institucional é mais do que um erro de forma — é um erro de significado. A presença do Estado em zonas de calamidade não se mede apenas pela deslocação física dos seus representantes, mas pela capacidade de traduzir, em gestos e atitudes, o respeito pelo sofrimento alheio.

 

Como defende Pierre Rosanvallon, a legitimidade do poder democrático constrói-se também na “proximidade sensível” com os cidadãos. Em momentos de crise, essa proximidade não é simbólica — é essencial.

 

Quando essa dimensão falha, instala-se uma perceção perigosa: a de que existe uma distância emocional entre quem governa e quem sofre.

 

O peso dos símbolos na política contemporânea

 

A política moderna é, em grande medida, uma disputa de perceções. Não basta agir; é preciso demonstrar que se age com responsabilidade. Guillermo O’Donnell já sublinhava que a accountability democrática também se expressa no plano simbólico — na forma como o poder se apresenta e se deixa escrutinar.

 

Neste caso, a imagem de ministros sorridentes num cenário de luto coletivo funciona como um “ato falhado” político: revela, ainda que involuntariamente, uma desconexão entre o protocolo institucional e a sensibilidade exigida pela circunstância.

 

A disputa pela narrativa

 

Do outro lado, a oposição, liderada por ACJ, ocupa rapidamente esse vazio simbólico. Imagens de proximidade, semblantes carregados, gestos de solidariedade. Não se trata apenas de presença — trata-se de encenação eficaz.

 

Aqui, a leitura de Erving Goffman é particularmente útil: a política funciona como um palco onde os atores competem pela definição da realidade. Quem melhor interpreta o momento, ganha legitimidade perante o público.

 

Isso não significa ausência de cálculo político. Tanto governo como oposição operam dentro de uma lógica de capitalização simbólica. A diferença está na execução — e, neste episódio, essa diferença é evidente.

 

Entre o teatro e a dignidade

 

O episódio de Benguela não é apenas um deslize comunicacional. É um sinal de alerta sobre a forma como o poder se relaciona com o sofrimento coletivo.

 

Num país marcado por desigualdades e vulnerabilidades estruturais, cada gesto institucional carrega um peso acrescido. A forma como se chega, como se olha, como se fala — tudo comunica.

 

Como lembra Timothy Coombs, em contextos de crise, a empatia não é opcional — é o primeiro requisito da liderança.

 

Conclusão: quando a forma define o conteúdo

 

A descida alegre do avião não foi apenas um momento infeliz. Foi uma metáfora poderosa de um problema mais profundo: a dificuldade de alinhar protocolo com humanidade, poder com compaixão.

 

O país não precisa de encenações mal ajustadas à realidade. Precisa de autenticidade. Precisa de líderes que compreendam que, em tempos de dor, governar é também saber partilhar o luto.

 

Porque, no fim, é na forma como se responde ao sofrimento coletivo que se mede, verdadeiramente, a dignidade de quem exerce o poder.

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