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O Português Angolano- Sousa Jamba

Entrar em certas discussões públicas em Angola é, por vezes, uma forma muito trabalhosa de perder tempo. Uma pessoa entra com a esperança ingénua de encontrar uma ideia e acaba a tropeçar em vaidades, ressentimentos e pequenas sentenças proferidas com a solenidade de quem acaba de descer do Sinai trazendo, não tábuas da lei, mas um comentário de Facebook.

Ainda assim, há afirmações que merecem resposta, não por serem profundas, mas precisamente por serem rasas demais para passarem por pensamento.

Circula por aí a tese, apresentada com aquele ar definitivo que em Angola tantas vezes substitui a leitura, segundo a qual eu, Salas Neto e Graça Campos somos “bons na caneta”, mas incapazes, verbalmente, de justificar o que escrevemos. A frase é bonita na sua própria pobreza. Tem a vantagem de ser curta e a desvantagem de não resistir a trinta segundos de exame.

Não venho aqui defender-me. Aprendi o português mais tarde na vida, já com outras línguas a fazerem barulho dentro da cabeça. Fui ajudado por muita gente generosa e competente a melhorar a minha escrita. Ainda hoje agradeço a quem me corrigiu uma frase torta, uma concordância infeliz, uma vírgula colocada como quem atira uma pedra para dentro de um quintal. O inglês entrou-me pela vida com a liberdade de quem abre a porta sem pedir licença. O português exigiu mais trabalho, mais humildade, mais escuta. Uma língua aprendida com esforço nunca é apenas instrumento. É território conquistado palmo a palmo.

 

Mas se posso aceitar, sem grande drama, que alguém discuta as minhas limitações, já me parece quase cómico ver Graça Campos e Salas Neto metidos nesse mesmo saco de incompetência verbal. Há injustiças que ainda conseguem ser inteligentes. Esta nem esse pequeno luxo tem.

 

Graça Campos e Salas Neto são homens que conhecem o português por dentro. Não apenas o português decorativo, de discurso bonito e gravata bem apertada, mas o português vivo, com nervo, osso, respiração e sintaxe. Durante anos foram meus editores no Semanário Angolense. Passavam pelos meus textos com a paciência de cirurgiões e a severidade de professores antigos. Cortavam excessos, corrigiam desvios, apertavam frases, limpavam ambiguidades. Eu entregava, muitas vezes, uma peça ainda a cambalear. Eles devolviam-me um texto capaz de andar direito na rua. Quem teve textos editados por Salas Neto ou Graça Campos sabe que não estava diante de funcionários da vírgula. Estava diante de homens com ouvido, cultura e disciplina verbal.

 

Há, porém, uma confusão persistente. Muita gente confunde sotaque com domínio da língua. Confunde pronúncia com pensamento. É uma forma cómoda de julgamento, porque dispensa o esforço de ouvir o que está a ser dito. Basta reparar no modo como a pessoa abre as vogais ou deixa a terra natal entrar pela frase, e logo aparece o tribunal dos superficiais, de toga emprestada e ouvido mal lavado.

 

Julius Nyerere era um mestre da língua inglesa. Pensava em inglês com precisão, escrevia com clareza, discursava com arquitectura intelectual. E falava com um sotaque distintamente africano-oriental. Só uma cabeça muito colonializada, ou muito preguiçosa, confundiria isso com falta de domínio da língua. O sotaque dizia de onde ele vinha. Não dizia até onde a sua inteligência podia ir.

 

Salas fala com um sotaque que traz Luanda, a sua origem, a sua geografia humana. Não faz o papel triste de fingir que nasceu em Lisboa ou em qualquer sala de estar onde se serve chá com a ilusão de superioridade gramatical. Não encena uma portugalidade postiça para impressionar ouvintes distraídos. Fala sabendo o que diz. Com Graça Campos acontece algo semelhante. Não pertence à escola dos que falam como se estivessem permanentemente a pedir autorização a Lisboa. Também não pertence a essa outra corrente, visível em certos meios religiosos, em que pessoas perfeitamente angolanas acordam de manhã e, por inspiração do Espírito ou da televisão por satélite, começam a falar com entoações brasileiras,  como se Deus tivesse mudado de nacionalidade durante a madrugada.

 

Sotaque é apenas sotaque. O que prova domínio é a capacidade de organizar o pensamento, escolher a palavra exacta, construir uma frase limpa, distinguir brilho de ruído, clareza de exibicionismo, profundidade de espuma.

 

Dizer que alguém escreve bem mas é verbalmente incapaz de justificar o que escreve é uma dessas frases que parecem inteligentes apenas porque fazem barulho. Quem escreve com rigor pensa. Quem pensa articula. Outra coisa é confundir eloquência com gritaria, reflexão com espectáculo. Há quem fale muito e diga pouco. Há quem confunda fluência com profundidade, como se a língua fosse uma motorizada de praça, tanto mais admirável quanto mais barulho fizer no arranque.

 

Graça Campos e Salas Neto não precisam que eu os defenda. A obra deles defende-os melhor do que qualquer indignação minha. Mas há momentos em que o silêncio, perante certas frases, começa a parecer cumplicidade com a preguiça mental.

 

A crítica é bem-vinda. A ignorância também tem direito de circular. Mas convém que, pelo menos, traga sapatos limpos.

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