O Tenente-General Nelo Russo levantou a voz para denunciar a dura realidade que os militares angolanos enfrentam há anos: Uma realidade de miséria. De abandono e de humilhação. Mas, em Angola, falar demais é um risco que se paga caro: O silêncio não é apenas imposto. É uma sentença. Nelo Russo foi sentenciado. Está no seu canto e ca-la-din-ho!
A crise militar latente em Angola não se resolve com silêncios nem com repressão. Nem com purgas administrativas. Resolve-se com um gesto político de grandeza: Reconhecer que há uma ferida aberta no corpo do Estado. E essa ferida está nas Forças Armadas (FAA). O desconforto dos generais, o abandono dos oficiais superiores e o ressentimento de milhares de militares no activo e na reforma não são sintomas de uma fractura (ainda não assumida) entre o poder civil e a sua base armada.
É tempo de se pôr fim à humilhação dos generais. Desde 2017 que têm sido tratados como restos da guerra, e não como heróis da paz. Foram arrastados pelo discurso do “combate à corrupção”, como se todos tivessem saqueado o Estado. Essa humilhação silenciosa criou o cenário actual: Uma tropa desmoralizada e invisibilizada, nivelada com os cidadãos mais pobres do país. A direcção do Estado que outrora os aclamou, hoje ignora-os. Rebaixa-os. Humilha-os.
O Presidente da República e Comandante-em-Chefe deveria fazer o seguinte: Levantar o moral das FAA; criar um Conselho de Reconciliação Castrense; ordenar uma auditoria pública e pedagógica sobre os últimos 10 anos de desmobilizações, reformas e cortes para separar Justiça de revanchismo e responsabilização de humilhação. Deveria também reintegrar simbolicamente figuras militares injustamente marginalizadas, resgatando memórias e serviços prestados, sem medo de corrigir erros políticos cometidos em nome da “renovação”.
Opção: Cabe agora a João Lourenço escolher entre a maturidade de estadista ou o impulso da vingança. O País já não tem margem para erros de carácter político e pessoal. É chegada a hora da responsabilidade política e da coragem moral. A cura da ferida aberta no corpo do Estado em 2017 não se compadece com paliativos ou caprichos políticos.
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