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De Kilape em Kilape: o Kwenda deve orgulhar os angolanos? - Ilídio Manuel

A imprensa doméstica, sobretudo a pública tem dado grande destaque ao Kwenda, um programa assistencial às camadas mais desfavoráveis da população, que foi classificado como “altamente satisfatório” pelo Grupo de Avaliação Independente do Banco Mundial (BM).

 

Segundo a mesma imprensa, Angola obteve “a nota mais alta atribuída pela instituição aos projectos que financia”. Este resultado foi divulgado a 19 de junho de 2026, após avaliação final dos 5 anos da sua implementação, entre julho de 2019 e abril de 2025.

Segundo o BM, o programa desembolsou 99,8% do orçamento previsto e beneficiou 1 milhão de agregados familiares em 64 municípios, 196 comunas e mais de 8 mil bairros e aldeias de Angola. 

A avaliação da instituição financeira mundial destaca que os recursos chegaram efectivamente às populações em situação de extrema pobreza e vulnerabilidade.

 

Consta que o programa levado a cabo pelo FAS-Instituto de Desenvolvimento Local, não se limitará ao apoio financeiro imediato, mas também no sentido de “criar bases para um sistema permanente de proteção social e fortalecer mecanismos locais de apoio às famílias mais vulneráveis”. 

 

Sem pretender colocar em causa ou em dúvida o impacto social deste programa junto das camadas mais desfavorecidas, considero, no entanto, que houve uma ocultação quanto à proveniência dos fundos que sustentam o referido programa. Suspeito que a omissão desse importante dado terá sido no sentido de esconder que o grosso do dinheiro é fornecido pelo Banco Mundial, a título de EMPRÉSTIMO. A outra parte, é proveniente dos cofres do erário. 

 

De igual modo, não pretendo trazer à liça as críticas que apontam o Kwenda como sendo um programa que, dentro outros objectivos, persegue fins eleitoralistas, com vista a assegurar a manutenção do MPLA no poder.

 

É natural que o BM sinta um certo orgulho na implementação dos seus programas em vários países onde actua, quando mais não seja as garantias que isso lhe oferece em matéria de retorno dos milionários empréstimos que faz. 

 

As políticas que visam mitigar o impacto das políticas económicas, reduzir os elevados níveis de pobreza e miséria são sempre bem-vindas, mas, verdade seja dita, um país não se deve orgulhar do recurso sistemático aos kilapis internacionais para resolver as suas crises internas. Ora, tratando-se de dívidas significa que o dinheiro terá, cedo ou tarde, de ser pago com juros, que serão agravados se forem de mora.

 

Dito de outro modo, os kilapes irão, desgraçadamente, sobrar para as gerações vindouras, pois serão elas a pagar a pesada factura herdada das actuais gerações. As dívidas contraídas em nome do Estado vinculam todos os cidadãos: os que estão em vida, como os que irão nascer. Por esta razão diz-se que cada angolano deve X ou Y ao estrangeiro.

 

Acredito que o recurso ao crédito ao estrangeiro seria menor se as tão propaladas políticas de austeridade não fossem apenas consentidas pelo povoleu, que não tem outra saída, senão apertar os cintos, quase a comer as fivelas…

 

Paradoxalmente, o Executivo pede com a mão direita ao povo uma miríade de sacrifícios, mas com a mão oposta gasta que se farta. Na realidade, continuamos a ter um Executivo gorduroso, embaixadas, consulados e institutos públicos que consumem uma fortuna do erário; os detentores de cargos políticos não têm tido a menor " preguiça" em "queimar" o kumbu em constantes viagens ao estrangeiro e aquisição de viaturas do topo de gama.

 

Não há orçamento que resista a tanto despesismo e ostentação do luxo, em meio à miséria generalizada.

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