A República Democrática do Congo está à beira de mais uma crise política de proporções imprevisíveis. O actual incumbente, Presidente Antoine Tshisekedi Tshilombo, tem pretensões de avançar para um terceiro mandato por via de uma alteração constitucional a ser submetida a um referendo. Opositores políticos e sociedade civil já estão em pé de guerra contra as intenções do Presidente. Os analistas já preconizam um clima de violência que poderá agravar a crónica instabilidade política no país.
Entretanto, a Assembleia Plenária dos Bispos da Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) fez publicar no dia 19 de Junho uma nota pastoral com o título “La Nation est en peril” (A nação está em perigo). O seu conteúdo é muito forte, frontal e sem rodeios diplomáticos. Sim. Os Bispos foram directamente ao assunto e tomaram uma posição: a Constituição (18 de Fevereiro de 2006) tem de ser respeitada na íntegra; não há terceiro mandato. O Presidente só tem um único caminho: respeitar a Constituição e partir no termo do seu segundo mandato em curso.
Os Bispos alertam sobre a manipulação que se esconde por detrás da revisão constitucional e os perigos inerentes, nomeadamente uma nova guerra civil e a balcanização do país. No rescaldo de um profundo discernimento, os Bispos dizem não encontrar urgência, nem necessidade e muito menos acham oportuna uma revisão constitucional. E avançam para algumas acções como o apelo ao povo congolês para a resistência por todos os meios legais e pacíficos. Aqui a Igreja está a impulsionar uma acção revolucionária que vai pôr à prova a consciência cívica e a determinação do povo congolês.
Em certas circunstâncias da História, a Igreja assumiu o ónus da praxis revolucionária para defender valores supremos como a liberdade e a dignidade humana e dos povos. Nem sempre se pode ser neutro perante as injustiças e perante a opressão. O Arcebispo anglicano Desmond Tuto dizia a propósito: «Se és neutro em situação de injustiça, escolhes o lado do opressor». Isso não é marxismo. É o Evangelho! O Evangelho de Cristo é um compromisso para a acção transformadora das estruturas do pecado no mundo. Ora a opressão e a ditadura são pecados contra a humanidade que não se vencem apenas com exortações e recitações piedosas.
É preciso atitude, acção e compromisso. Infelizmente, nesta nossa África onde campeiam estruturas opressoras e ditaduras jurássicas, nem sempre temos a Igreja de Cristo na vanguarda e comprometida pela justiça e pela dignidade da pessoa. Há demasiada Igreja confinada na paz das sacristias, descomprometida e sem testemunho profético. O bom pastor cuida das ovelhas e dá a vida por elas. O mercenário vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então o lobo as arrebata e dispersa (Jo 10, 12-13).
Tenho certeza que essa posição dos Bispos congoleses será muito bem acolhida pelo povo congolês. E sob a liderança da Igreja, esse povo, com dramáticas reminiscências da ditadura mobutista, não vai permitir o desabrochar de um novo ciclo de ditadura no país.
Os Bispos apelam à resistência. O povo vai resistir! E que sirva de exemplo para outras latitudes (não muito distantes do Congo!) onde os povos gemem sob poderes opressores que se reciclam periodicamente através de eleições fraudulentas e a Igreja de Cristo insiste e persiste na cegueira consentida, na inacção cobarde e no mutismo cúmplice. Haja fé!
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