A política é frequentemente comparada ao xadrez. Não porque os seus desfechos sejam previsíveis, mas porque, tal como no jogo, as vitórias raramente resultam de uma única jogada ou da força isolada de uma peça. Os grandes estrategas sabem que o sucesso depende da capacidade de posicionar cada elemento no momento certo, preservando a iniciativa e antecipando os movimentos do adversário.
No actual momento político angolano, marcado pela aproximação do IX Congresso Ordinário do MPLA, essa metáfora parece ganhar especial actualidade.
É inegável que Bento Kangamba construiu, ao longo dos anos, uma forte implantação social e política. Empresário, dirigente desportivo e militante activo, tornou-se uma figura de grande popularidade em vários segmentos da sociedade, sobretudo entre os jovens. As suas iniciativas sociais e o contacto permanente com as comunidades fizeram dele um mobilizador com uma capacidade de influência que poucos dirigentes possuem.
Ao longo dos anos, essa capacidade foi reconhecida dentro do próprio MPLA. Durante a liderança de José Eduardo dos Santos, Bento Kangamba desempenhou um papel relevante na mobilização das bases e na dinamização da militância, num período em que o partido alcançou expressivas vitórias eleitorais. Também nas eleições de 2017 foi amplamente visto como um dos activos políticos envolvidos na mobilização em torno da candidatura de João Lourenço.
Em 2022, porém, muitos observadores entenderam que essa capacidade de mobilização não foi aproveitada da mesma forma. Independentemente das causas, o resultado eleitoral foi significativamente mais equilibrado do que nos pleitos anteriores, alimentando o debate sobre a importância de preservar e integrar todos os activos políticos do partido.
Agora, com o IX Congresso Ordinário à porta e perante a intenção anunciada por Higino Carneiro de disputar a liderança do MPLA, o partido entra numa fase particularmente sensível. É natural que surjam diferentes sensibilidades e projectos políticos. Contudo, também é evidente que qualquer disputa interna exigirá grande capacidade de diálogo para evitar fracturas.
É neste contexto que Bento Kangamba volta a ser apontado por muitos militantes como uma figura capaz de construir pontes entre diferentes sectores do partido. Não apenas pela proximidade que mantém com diversas estruturas, mas também pelo capital político e humano que acumulou ao longo de décadas de actividade pública.
No xadrez, um bom jogador sabe que nem sempre a peça mais poderosa é aquela que decide a partida. Há momentos em que um cavalo abre linhas inesperadas, um bispo controla diagonais decisivas ou uma torre fecha todas as alternativas do adversário. O verdadeiro estratega não deixa peças influentes fora do tabuleiro; procura integrá-las na estratégia, coordenando os seus movimentos em função do objectivo comum.
Se João Lourenço pretender chegar ao Congresso com uma posição reforçada e preservar a unidade do partido, talvez o desafio não passe apenas por responder aos movimentos dos seus potenciais adversários. Passe, antes, por reorganizar o tabuleiro, recuperar peças com capacidade de influência e colocá-las a jogar na mesma direcção.
Num jogo de xadrez, o xeque-mate raramente resulta de uma única jogada brilhante. É o culminar de uma estratégia paciente, onde cada peça encontra o seu lugar e desempenha o papel para o qual está vocacionada. Na política, como no xadrez, ignorar uma peça influente pode significar perder iniciativa. Saber utilizá-la pode ser a diferença entre controlar a partida ou ser obrigado a reagir aos movimentos dos outros.
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