Há um erro recorrente e conveniente na análise da política externa dos Estados Unidos: tratá-la como essencialmente pragmática, racional e baseada apenas em interesses materiais. Essa leitura ignora um facto desconfortável para a ortodoxia liberal: a geopolítica americana é profundamente ideológica, moralista e herdeira directa do puritanismo protestante que fundou o país. Não é retórica religiosa residual, trata-se de uma estrutura mental de poder que continua a moldar decisões estratégicas globais.
Desde os primórdios da colonização, os puritanos da Nova Inglaterra conceberam-se como um povo eleito, investido de uma missão divina. A famosa imagem da “cidade sobre a colina” não era um simples apelo ético; era um projecto político: viver para ser visto, julgado e imitado. Essa lógica de exemplaridade moral evoluiu, secularizou-se e deu origem ao excepcionalismo americano, a crença de que os Estados Unidos não são apenas mais um Estado soberano, mas o árbitro moral do sistema internacional.
Ao contrário das potências clássicas, que assumiam o poder como interesse, os EUA tendem a disfarçar poder como virtude. As suas guerras raramente são apresentadas como guerras de interesse; são cruzadas. Foi assim na Guerra Fria, transformada numa luta metafísica entre o “mundo livre” e o “mal comunista”. Foi assim após o 11 de Setembro, quando a “guerra ao terror” assumiu contornos quase teológicos. E continua a ser assim na promoção selectiva da democracia, dos direitos humanos e da chamada “ordem baseada em regras”.
Esta herança protestante introduziu na política externa americana um maniqueísmo estrutural: aliados são “bons”; adversários são “maus”. Estados não alinhados são suspeitos. A neutralidade é vista como imoral. O compromisso é confundido com fraqueza. O resultado é uma política externa pouco tolerante à diversidade civilizacional e profundamente desconfortável com um mundo multipolar.
O chamado Destino Manifesto, que no século XIX justificou a expansão territorial e o extermínio de povos indígenas, não desapareceu, apenas mudou de escala. Hoje, a expansão já não é geográfica, mas normativa. Instituições financeiras, regimes jurídicos, sistemas de sanções e mecanismos de pressão internacional funcionam como instrumentos de universalização de valores anglo-protestantes: disciplinar, punir, corrigir, reformar.
É neste contexto que se deve ler um dado politicamente esclarecedor, mas raramente problematizado: os Estados Unidos já se retiraram de mais de seis dezenas de organizações, tratados e mecanismos internacionais, sempre que estes deixaram de servir os seus interesses estratégicos ou passaram a impor limites à sua liberdade de acção. Saídas ou suspensões de organismos multilaterais, acordos ambientais, estruturas de direitos humanos ou regimes de arbitragem internacional evidenciam um padrão claro: Washington aceita o multilateralismo apenas enquanto este reforça a sua própria visão moral e a sua posição hegemónica.
O paradoxo é denunciador. O mesmo país que exige compromisso institucional, regras comuns e respeito pela ordem internacional reserva para si o direito de abandono unilateral quando as regras já não lhe são convenientes. Trata-se de uma lógica tipicamente puritana: a norma é válida enquanto confirma a virtude do eleito; quando a questiona, passa a ser vista como ilegítima ou hostil.
Mesmo o direito, supostamente neutro, é convertido em arma. A extra-territorialidade das leis americanas, o uso selectivo de sanções, o lawfare contra adversários estratégicos e instrumentos como o FARA (Foreign Agents Registration Act, em português Lei de Registo de Agentes Estrangeiros) revelam uma lógica puritana clássica: vigiar, expor, estigmatizar e redimir pela submissão à norma. A lei deixa de ser apenas regra; torna-se catecismo secular.
Fonseca (2007) socorre-se de uma análise construtivista para explicar “o papel das normas, idéias, valores e identidades de um país como determinante de escolhas em política externa.” Dentro dessa interpretação fica destacada a questão do excepcionalismo, ou seja, “a convicção de que os Estados Unidos da América (EUA) são uma nação excepcional, produto de uma trajetória histórica única, e com um papel no mundo (a que muitos se referem como “missão”) igualmente extraordinário.”
Os valores e idéias do excepcionalismo norte-americano podem ser interpretados de diversas formas; interpretações seculares e/ou religiosas, uma vez que, dependendo da fonte, o país é fruto “do liberalismo lockiano, do capitalismo liberal, da democracia republicana ou da providência divina” (FONSECA, 2007).
A vertente secular do excepcionalismo enfatiza, o modelo político construído no país, “por vezes advogando a necessidade de promovê-lo (e reproduzi-lo) mundo afora”(FONSECA,2007). Também é destacado o papel da história, as características do sistema colonial inglês, os princípios presentes na Carta Magna e na declaração de independência e o isolamento continental que permitiu ao país se desenvolver isoladamente das ameaças e influências de outras nações.
O execpcionalismo religioso, por outro lado destaca o papel notável da fé, de valores morais e de mitos fundacionais protestantes na formação de “uma identidade nacional tipicamente norte-americana, sobre a qual se firmará, em seguida, a percepção de um papel especial para os EUA no mundo” (FONSECA, 2007).
Fonseca (2007), debate sobre o papel da religião na interpretação do excepcionalismo e sua influência na formatação da política externa dos Estados Unidos da América, partindo do principio que os valores e os ideais que constroem uma nação, influenciam na sua política externa.
Foi estrutural a contribuição dos primeiros colonos puritanos para a construção de uma identidade nacional norte-americana e nesse sentido, também para a definição de um comportamento no plano internacional, posto que este comportamento é reflexo de uma percepção de si mesmo.
A religião é determinante essencial, vista que foi “constantemente invocada pelo presidente George W. Bush, no lançamento da guerra contra o terror, cujo fervor religioso é facto amplamente conhecido e divulgado.
Os puritanos que colonizaram o território norte-americano, viram na “descoberta” de América, um obra divina e abraçaram essa fuga da Inglaterra, como uma “fuga do caos e da corrupção do velho mundo e uma tentativa de estabelecer a verdadeira ordem em um Novo Mundo”(FONSECA, 2007).
A viagem rumo aos Estados Unidos toma um sentido simbólico, criando-se um pararelo com a fuga dos hebreus do Egipto (Inglaterra), rumo a “Terra Prometida”(EUA). “Fiel a essa leitura, a sociedade colonial estabelecia-se na dupla convicção de haver sido imbuída de missão divina e de ser detentora da verdade transcendental” (FONSECA, 2007).
“Foi nesse contexto, nas primeiras décadas do século XVII, que um conjunto de mitos religiosos fundacionais surgiu entre os colonos puritanos, com o objectivo de emprestar à audaciosa iniciativa sentido espiritual, oferecendo assim aos seus participantes estímulo e conforto” (FONSECA, 2007).
O resultado é uma contradição estrutural: um país que proclama pluralismo interno projecta externamente uma visão moralmente rígida e pouco plural. A política externa americana tem dificuldade em aceitar que outros povos tenham prioridades, modelos políticos ou trajectórias históricas diferentes. Quem não se conforma é rotulado de “autoritário”, “pária” ou “ameaça à ordem internacional”.
Em África, na América Latina e em partes da Ásia, esta abordagem é cada vez mais percebida não como liderança benevolente, mas como imperialismo moral. A imposição de valores sob a bandeira da virtude gera resistência, incentiva alternativas estratégicas e acelera a erosão da hegemonia americana, precisamente o oposto do objectivo declarado.
A verdade é simples e desconfortável: os Estados Unidos não falham apesar do seu moralismo; falham muitas vezes por causa dele. Ao confundir interesses nacionais com missão redentora, Washington limita a sua capacidade de negociação, banaliza o abandono das instituições que diz defender e transforma conflitos políticos em batalhas existenciais.
Compreender a influência do culto puritano-protestante na geopolítica americana não é um exercício académico estéril. É uma chave analítica essencial para entender por que razão os EUA resistem a uma ordem verdadeiramente multipolar, recorrem sistematicamente à linguagem do bem e do mal, abandonam instituições internacionais quando estas deixam de os servir e têm dificuldade em aceitar um mundo que já não gira em torno da sua “cidade sobre a colina”.
Enquanto essa matriz não for reconhecida e criticamente revista, a política externa americana continuará menos interessada em coexistir com a diversidade do mundo e mais empenhada em corrigi-la. E a história mostra que impérios morais não caem apenas quando perdem poder, mas quando deixam de convencer.
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