Há, em Angola, uma pressa quase coreografada para abandonar o centro da tragédia e armar arraiais nas suas margens. Cai a chuva, rompe-se a vala, a água invade as casas, empurra portas, derruba muros de adobe, deixa colchões à deriva, panelas enlameadas, cadernos escolares colados pela lama, e logo se organiza, não uma atenção severa ao desastre, mas um pequeno mercado de desvios. De um lado, discute-se a frase; do outro, exibe-se a esmola; mais adiante, vigia-se o direito à indignação. E, enquanto isso, a enxurrada, que não lê comunicados nem respeita susceptibilidades, já cumpriu o seu trabalho bruto sobre o corpo dos pobres.
É esse o cenário que rodeia o que disse Nelito Ekuikui acerca das responsabilidades pelas inundações de Benguela. O Deputado da UNITA falou num tom que alguns julgaram excessivo. Uns afiam-se contra esse tom, como se o timbre de uma voz fosse mais grave do que a água castanha que atravessou quintais e salas. Outros erguem, com a rapidez de reflexos treinados, o pequeno altar da filantropia visível: sacos de arroz, cobertores, fotografias, o beneplácito moral que quase sempre acompanha a ajuda quando ela também quer ser vista. Outros ainda, com aquela solenidade oca de quem imagina guardar as chaves da praça pública, não perguntam o que aconteceu nem por que aconteceu; perguntam, antes, quem tinha autorização para dizê-lo.
Assim, o país desvia os olhos do lugar exacto onde deveria pousá-los. Não na espuma da polémica, mas no desenho do desastre. Não na frase infeliz, mas nas valetas entupidas há meses, nos bairros deixados crescer como capim bravo, nas casas erguidas em linhas de água, nos canais que só regressam à memória administrativa quando já transportam lama e desgraça. A tragédia chega sempre com ar de surpresa, mas quase nunca é surpresa. Vem sendo preparada devagar, em reuniões adiadas, em relatórios ignorados, em negligências acumuladas como lixo num colector.
Não basta, por isso, distribuir culpas no abstracto. É preciso olhar, com nomes, cargos e responsabilidades, para a província de Benguela e perguntar onde estiveram aqueles que tinham por dever prever, preparar e proteger. Onde estavam os serviços de protecção civil, quando os sinais se acumulavam? Onde estavam os técnicos de drenagem, os especialistas em ordenamento, os administradores encarregados de pensar o risco antes de ele se transformar em lama dentro das casas? A água caiu do céu; o desastre, esse, passou pelos gabinetes.
Quem percorre uma cidade depois de uma inundação aprende depressa a distinguir entre a força da natureza e a fraqueza das instituições. A primeira deixa marcas no chão. A segunda deixa marcas no modo como tudo parece apanhado de surpresa: os canais por limpar, os bairros frágeis crescidos sem regra, a ausência de aviso útil, cada actor a descobrir a própria função no exacto momento em que já deveria estar a executá-la. A certa altura, a paisagem administrativa torna-se legível. O barro nas paredes, a água parada, os rostos exaustos dos moradores, tudo começa também a falar da ausência dos que tinham obrigação de ter chegado antes da enxurrada.
Uma sociedade séria abre imediatamente, diante de um desastre destes, o capítulo da prestação de contas. Não para saciar uma sede de vingança, mas para restaurar o princípio elementar de que um cargo público não é um título ornamental. É uma obrigação. Quem não previu o que devia ter sido previsto, quem falhou onde não podia falhar, não deve ser protegido por cumplicidades sociológicas, fidelidades partidárias ou círculos de conveniência que tantas vezes servem de abrigo moral aos incompetentes. Deve sair. Simplesmente sair.
E, no seu lugar, devem entrar os mais capazes. Não os mais próximos, não os herdeiros tácitos de certos postos, como se algumas funções viessem reservadas, por costume, a grupos que se julgam donos naturais do aparelho. Perante a lama, esses mitos de pertença valem tanto como papel molhado. O único critério sério é a competência comprovada: a que sabe ler o céu e o solo, o mapa e a vala, o relatório técnico e o bairro vulnerável.
Essa honestidade, porém, não pode cessar no dia seguinte à catástrofe. Tem de se converter em estratégia: drenagens estruturadas, cartografia de risco actualizada, sistemas de alerta precoce e, onde a geografia já condenou bairros que a imprudência política foi engrossando, a coragem de relocalizar populações. Continuar a deixar que se acumulem casas frágeis em baixios perigosos para depois chorar, comovidamente, sobre os destroços não é compaixão. É desistência mascarada de humanidade.
Quem tem memória sabe que isto já foi dito antes. Depois de outras inundações, depois de outras mortes, também então se pediu seriedade e prevenção. E, no entanto, aqui estamos de novo. As cheias não nascem no dia em que a chuva cai com violência; nascem quando se deixa apodrecer o que deveria ser mantido, quando se tolera o improviso onde deveria haver regra, quando se permite que a cidade cresça como febre. A água apenas torna visível o que já estava podre. E um país que, diante disso, prefere discutir o aparte em vez da estrutura não está a pensar. Está apenas a mudar os móveis de lugar dentro de uma casa que continua a meter água.
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